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quarta-feira, 4 de junho de 2014

EDUCADOS PARA MATAR? OU A EDUCAÇÃO NÃO SERVE PARA HUMANIZAR?



Deixo o espaço cômodo da escrita da tese para vir aqui. Queria somente levantar algumas questões e depois debater, construir outros caminhos que nos levem a entender as (des) razões da vida. Esta semana, como todas, foi de intensas notícias, de chocantes revelações. Cito dois casos para que encurtemos a conversa.

Li e vi pela internet — canal que me ajuda a saber as notícias do meu Brasil distante — o assassinato de um zelador pelas mãos, quem sabe criativas, de um publicitário. E a outra, não menos horripilante, foi a ordem de um médico e seu filho, com a mesma profissão, para matar um colega de trabalho, quer dizer, outro médico. Mas o que tem em comum estes dois eventos? Creio que, além dos envolvidos serem de classe média, passaram pelas cadeiras das melhores escolas de Ensino Básico e, quiçá, das melhores Universidades. Eis o que me chama atenção. Não quero perder o foco da luta diária contra o extermínio da juventude negra e nem esquecer que na periferia de minha cidade Camaçari, minha capital Salvador e a querida Feira de Santana onde escolhi viver, morrem dezenas de jovens, negros e pobres. Muitos jamais tiveram a oportunidade de sair da sua miserável condição social.

Mas quando vejo, crimes bárbaros  — para mim, todo crime é crime, mas existem alguns que são simplesmente atrozes — penso que   aqueles que os cometem, geralmente, tem maior nível de educação. Talvez fosse relevante que os pesquisadores de Ciências Sociais e Educação fizessem uma pesquisa neste sentido de relação crime/instrução. Como vamos melhorar a sociedade? Qual o papel da educação neste tema?  Onde falhamos e o que precisa melhorar?

Quando elucubro sobre isso, me lembro do texto  do Professor Hamilton Werneck que li em 1995, quando ainda era um normalista:

" Prezados professores,
Sou sobrevivente de um campo de concentração. Meus olhos viram o que nenhum homem deveria ver:
Câmaras de gás construídas por engenheiros FORMADOS;
Crianças envenenadas por médicos DIPLOMADOS;
Recém-nascidos mortos por enfermeiras TREINADAS;
Mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados em COLÉGIOS E UNIVERSIDADES.
Assim, tenho minhas dúvidas a respeito da Educação. Meu pedido é este: ajudem seus alunos a tornarem-se humanos. Seus esforços nunca deverão produzir monstros treinados.
Aprender a ler, a escrever, aprender aritmética só são importantes quando servem para fazer nossos jovens mais humanos."
 (Prof. Hamilton Werneck. Se você finge que ensina, eu finjo que aprendo , Editora Vozes.)




O que leva uma pessoa “formada” por bons centros académicos a cometer tamanha violência contra o seu semelhante? O que devemos fazer, agora pergunto a nós professores, para diminuir essa visão de que “eu posso matar o outro”? Perguntas, perguntas. São as inquietações de um cabra que pensa que a humanidade ainda tem jeito. Se não a mudamos, podemos ao menos fazê-la mais reflexiva. Há tanto o que fazer e eu nunca me esqueço do mestre Paulo Freire e sua proposta de uma educação mais humana. 

terça-feira, 6 de maio de 2014

Aonde chegaremos com tanta violência?



Queria entender o que passa na cabeça de muita gente. Impossível, não? Vejo o Brasil mergulhado em incertezas, em problemas tão cruciais que alguns ainda não se deram conta. São mães parindo na calçada por falta de atendimento em hospitais e estes, os das clínicas, de muitas universidades públicas, funcionado de maneira caótica. A educação básica insuficiente. A mobilidade urbana das grandes cidades, não, essa nem imaginar!  A poluição que degrada os rios, as florestas e o ser humano. As populações indígenas com suas terras roubadas pelo agronegócio. Comunidades quilombolas oprimidas pela especulação imobiliária, perdendo o direito de morar onde sempre viveram desde o crime de lesa-humanidade, que foi a escravidão.


Sinceramente, são tantas coisas que as enumerações acima carecem de revisão, de acréscimo. Queria não pensar negativamente. Queria não perder a fé no ser humano, mas está difícil. Hoje é mais fácil fazer um ajuntamento e invadir a casa de uma vizinha, mãe, esposa, filha e linchá-la até a morte porque, através de um boato da internet, ela é a sequestradora de criança da cidade. E, diga-se de passagem, que a pobre mulher nunca foi acusada de nenhum crime, morreu sem defesa e inocente. É mais fácil promover a justiça com as próprias mãos, coisa tão bestial, que reunir-se em grupos, digo, a população em peso nas praças e reivindicar do poder público uma mudança drástica, quer dizer, mudar a direção do país.



Até quando vamos ver isso acontecer?   Meu medo é que naturalizemos esta violência. Isso será o fim da picada. Passarmos pelas ruas e ver cadáveres e pensar: “só mais um”. O brasileiro, ou melhor, a sociedade civil organizada precisa despertar, dar um basta antes que nos eliminemos uns aos outros ao velho estilo do coliseu romano. E se me permitem, queria pedir à sociedade duas coisas simples: um café quentinho e muita civilidade, por favor. 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Caminhar por Colômbia

Santa Fé de Antioquia, foto Denilson, acervo Pessoal
Há um pouco de interiorano em mim. Por mais que viva na cidade grande, a simplicidade, a amizade, o histórico e o saboroso ambiente rural me atrai. Sou como aqueles que, ainda que tenha nascido na capital, no meu caso Salvador na Bahia, sido criado em Camaçari, na região metropolitana baiana e escolhido Feira de Santana — o entre-lugar do sertão — para viver, bate sempre uma vontade danada de conhecer as cidade pequeninas e acolhedoras do país.

Verdade, que neste momento não estou no Brasil. Encontro-me na Colômbia, em Medellín. Neste processo acadêmico que estou imerso, nesta escrita de tese prazerosa e angustiante, às vezes, exige parar um pouco e caminhar. Conhecer gente nova, gente boa, gente alegre, gente que na simplicidade da vida faz o outro sentir-se bem. Foi com essa ideia que saí de casa nesta semana, por um dia e não mais que isto, para tentar encontrar um lugar que me fizesse relembrar minhas raízes, já que minha mãe veio de Paripiranga no interior da Bahia e
Artesanato indígena, Santa Fé de Antioquia, foto: Denilson, acervo pessoal
sempre tivemos uma nostalgia matuta.

Mais ou menos a duas horas de distância de Medellín está a cidade de Santa Fé de Antioquia. Pequena, com casas coloniais e com uma população orgulhosamente católica. Como em toda cidade latino-americana, há os lugares de histórias, museus, a casa do fundador da cidade, a primeira casa deste ou daquela que viveu aqui nos idos de tal e tal. Quando vejo isso — vale a pena dizer que ainda que eu não seja historiador, mas seja sujeito da história — me pergunto: e os povos autóctones que estavam aqui? E suas malocas, tabas que foram construídas? Creio que foram catequizados ou dizimados, assim foi o destino dos nossos antepassados, os primeiros habitantes daqui. Além disso, me vem à mente a dúvida do que aconteceu com o primeiro negro que chegou sob a condição de escravo para fazer serviço que europeu não queria fazer e depois nós, os negros ou indígenas é que somos os preguiçosos.

Barraca de doces e frutas, Santa Fe de Antioquia, foto: Denilson, acervo pessoal
Mais além dessa história contada sob o ponto de vista do vencedor, Santa Fe de Antioquia é bela. Com arquitetura colonial espanhola, com gente sorridente e o melhor, com comida e sobremesas excelentes, como em muitos lugares da Colômbia querida. Quando chegamos à cidade, ainda na rodovia, pensamos não encontrar muita coisa, mas ao subir umas de suas ruas, que ainda guarda o pavimento colonial, creio, encontramos um centro histórico que nos faz recordar o Pelourinho, em Salvador, o Recife antigo em Recife, Porto Seguro, na Bahia, Paraty, no Rio de Janeiro e tantos outros lugares históricos.

Procissão de Sexta da paixão, Santa Fe de Antioquia, foto: Denilson, acervo pessoal


Depois de um dia de caminhada, observação da fé, demonstrada na procissão de sexta-feira da paixão. De comer algumas guloseimas, regressei. E que sentimento trouxe? O de que caminhar é preciso, conhecer e viver também. Um dia que saímos da rotina, da escrita solitária de uma tese doutoral, ajuda-nos a oxigenar a mente e dar firmeza na caneta para seguir no trabalho.





Medellín, 19 de abril de 2014

domingo, 13 de abril de 2014

E viver, o que é mesmo?

E viver, o que é mesmo?

Sim, o que é viver? Nesses dias turbulentos o poema de Carlos Drummond de Andrade está mais atual que nunca e nos ajuda a compreender nosso momento:

“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco”.

Duro é ver que em nossos dias, a vida se tornou inútil, sem valor algum. Desesperadamente perdemos a beleza, a vitalidade e o prazer de viver. De todos os lados podemos ver culto ao ódio. Por que nos tornamos tão intolerantes? Talvez não seja surpresa, pois a vida é isso. Há dias de paz e de guerra. O que não vale a pena é perdermos a nossa capacidade de leitura da vida, de compreensão profunda de sua tessitura. Viver é lutar, é ultrapassar as barreiras que insistem em nos calar, em nos oprimir, em nos proibir de ser o que somos. E quando nos impõe uma ordem, quando nos oprime, se instaura a via exclusiva de produção de texto e sentido. Daí nos cabe desconstruir a leitura única do mundo.

Não negamos que às vezes nos assusta ver como o outro trata seu par. Mas partindo do pressuposto que a natureza humana é dialética, complexa e infinita, então nos damos conta que não são surpreendentes atitudes que violam o direito à vida. Mas isso não significa que somos complacentes com a violência. De maneira nenhuma. A violência é histórica e tem que acabar. Mas, como na sociedade existe o conflito, o que é normal, esse nos ajuda a crescermos e sermos mais altruístas.  O desafio é encarar o “outro” como aquele que é “eu”. Eis a estratégia para ler a vida.

Mas que posição devemos tomar? Cremos que a resposta possível é ter uma atitude empática, uma maneira de encarar a vida como um texto inacabado. Nesse contexto, o eu/outro é o leitor que produz a escritura, compartilha vozes, interpretação e produção de sentido no tecer da vida. Se observarmos bem, a cada momento em nosso entorno nos enfrentamos com atitudes racistas, homofóbica, discriminação de todo tipo, misoginia e todas as violências correlatas. É necessário, mais do que nunca encarar a vida como desafio real e como possibilidade de leituras pluritextuais desmistificadas. 

Quem sabe o poeta Drummond no poema “Os ombros suportam o mundo”, que começamos essa reflexão, já nos tenha dado uma pista:


“Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação”.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Colômbia dos sem fins II



        Outra experiência tive aqui na Colômbia. Conheci parte do oriente do estado de Antioquia cuja capital é Medellín. Cidades muito próximas, tão pequenas e acolhedoras: El Retiro, San Antonio de Pereira (que na verdade é um distrito pertencente à cidade de Rio Negro) e El Carmen de Viboral.
O tom colonial das cidadezinhas as torna charmosas e aconchegantes. As pessoas, ah! as pessoas... são tão amistosas, receptivas e cheias de calor humano. Não nego que me senti em casa, na Bahia.
Caminhava por El Retiro com um casal de colombianos, Carlos e Ana, quando um senhor, dono de um estabelecimento ímpar, nos viu e nos chamou. Os dois companheiros com quem  passeava, prontamente, me apresentaram e lhe disseram que eu era brasileiro e que estava
A casa de seu Carlos
conhecendo a região. Ele de imediato perguntou-me: - Como se diz bienvenido em português? Meu amigo e também estudante de português respondeu em uníssono comigo: bem-vindo. Carlos, assim se chamava o gentil homem, era xará do meu amigo, tomou uma caneta e um papel e anotou a palavra e a repetia sorridente para mim: - Bem-vindo, bem-vindo, bem-vindo. Muito simpático, nos apresentou o outro senhor que o acompanhava, Augusto, e nos convidou a conhecer o interior da casa. Era uma casa com uma fachada colonial, bonita e bem conservada. Quando entramos percebemos que era um sobrado à moda arquitetônica espanhola. Uma pracinha quadrada, pequenina e rodeada de cômodos divididos em dois pisos.
O senhor amavelmente nos mostrou um piano, aqui eles chamam de piano, mas era uma caixa de música... daquelas antigas.  Não sei como se chama, perdoem-me a minha ignorância, mas me recordo que nos filmes da sessão da tarde sempre aparecia uma, principalmente nas cenas que havia bares. As pessoas colocavam uma moeda e a caixa tocava uma música. Havia também, na casa de don Carlos, várias coisas antigas, mas o que o nobre cavalheiro vendia no seu pequeno negócio à frente de sua casa, era  mesmo guaro que é uma maneira carinhosa dos colombianos  nomearem a aguardente .
Quando já saíamos, disse-me: - Um gusto conocerle. Eu lhe respondi: - Em português dizemos: Foi um prazer conhecê-lo. Ele riu e respondeu com um sotaque agradável: - Obrigado.
Saímos contentes dessa recepção antioquenha tão singular. Como são parecidos os
Sacada de um sobrado em El Retiro
moradores de cidades pequenas. No meu país, aconteceria possivelmente o mesmo. Mas às vezes penso que aqui são mais calorosos, porque quando um colombiano sabe que sou brasileiro, vejo o brilho nos olhos dele. Pergunta-me sobre muitas coisas do Brasil inclusive a moda do momento: El mundial, ou seja, a copa do mundo. Como somos bem tratados no país do inesquecível Gabriel García Marquez, nuestro Gabo.

Caminhei, olhei as sacadas das casas coloniais e comi os saborosos postres (sobremesas) de San Antonio de Pereira. Em El Carmen de Viboral vi as velinhas, uma tradição colombiana quando, na véspera do dia 8 de dezembro, as acendem em homenagem à Imaculada Conceição.  Colômbia é pura festa. Música, muita comida, guaros e empanadas (pastel de batata e frango). Desfrutei gulosamente de um bolinho de milho, com cebola e sal frito: torta de choclo. As cores dos enfeites natalinos, a alegria das pessoas, tudo, tudo na
As crianças e a tradição das velinhas
Colômbia faz a gente querer bem, parafraseando meu conterrâneo Caetano Veloso. 

sábado, 23 de novembro de 2013

Colômbia dos sem fins...


Peñol e Guatapé duas cidades encantadoras, a primeira foi  transferida para outra área devido a construção de uma hidroelétrica na região.  A segunda ficou imponente sobre uma colina, guardando seu ar de cidade do interior.











Conheci essa semana as duas e sem dúvida me fascinou. Como no Brasil, as cidades são formosas, aconchegantes e cheias de curiosidades para o turista explorar.
A cidade de Guatapé ferve no feriadão, é gente de todos os lados. Barco e lanchas lotados para fazer um passeio na gigantesca represa, tudo é muito legal.





É bonito entrar na cidade, andar pelas ruas pequenas e olhar as casa coloridas e com seus rodapés enfeitados com variados tipos de desenhos. Aqui, eles chamam de zócalos. As formas, as cores o sorriso das pessoas, o cumprimento matina com um  “Buenos días” é de uma simpatia que o colombiano sabe expressar muito bem.








A cinco minutos da cidade, nos deparamos com o Peñón de Peñol. É uma gigantesca montanha de granito com 659 escada até a base e depois você pode chegar até o pico, no total são 740 escada. O sacrifício da subida compensa. A vista é maravilhosa. A exuberância da paisagem faz você se sentir no céu.









Desvendar o caminho de Colômbia é o que eu chamo de atividade extraclasse. Outro Doutorado eu faço conhecendo gente de lutas e muitas histórias.


Denilson, Colômbia, novembro de 2013.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Um outro cânone


Um outro cânone

Dado um modelo de arte. Desse modelo se formará uma tradição. Dessa tradição só será permitida autores e obras estabelecida por um cânone. É aqui que começa a exclusão. Somos uma civilização forjada pela tradição greco-romana.
Esse tal cânone literário – formado por um ideário do homem, branco, ocidental – é a máxima expressão da negação do outro.
É preciso outra via. Eu já sei. Eu já a conheço.
Sou a favor de griotismo literário. Essas poucas regras ocidentais não dão conta de minha história. Sou herdeiro de África. Trago a voz de meus antepassados. Sou neto de Griots e filho de contadores de história do sertão brasileiro.
Impossível não desconstruir os pilares de uma teoria da literatura que exclui. Quero a negralização das letras. Sou irmão de luta de uma literatura indígena, a verdadeiramente autóctone.
Se isso é utópico, comungo com Eduardo Galeano: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo (sic) dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.
Assim sigo esse caminho, assim refaço o que tentam tirar de nós.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O cosmopolitismo do negro pobre e excluído



Essa semana, precisamente no dia 26 de abril de 2012, no auditório da Universidad los Andes em Bogotá, eu assisti a uma palestra – daquelas que saímos extasiados, transcendentemente plenos de gozo – do professor e crítico literário Silviano Santiago. E esse evento me fez pensar o nosso lugar, nossa luta como cosmopolitas negros e pobres.

O professor, com maestria, expôs sobre questões do narrador moderno e pós-moderno na literatura. Foi de extrema precisão, com uma linguagem fluída e coesa que escutamos, sobretudo, participando dos aportes teóricos à cultura latino-americana.

Diante de tudo que vi e ouvi, algo me chamou a atenção. Ao fazer referência ao seu livro O cosmopolitismo do pobre o professor Silviano Santiago – para explicar o conceito de cosmopolitismo e sua não opção por globalização por ser um conceito econômico e desgastado – exemplificou seu pensamento, citando Jean Charles de Menezes que, sendo oriundo de família não abastada, morre num metrô de Londres como vítima de policiais despreparados. Assim, isto seria um exemplo de um pobre cosmopolita, ou seja, o cosmopolitismo está ligado à ação de ser pobre e ir além de suas fronteiras geográficas. Por outra parte, o professor se tomou como exemplo e disse que também participava desse cosmopolitismo, isto é, ele seria um pobre cosmopolita, por ter vindo de família carente e alcançar um posto na intelectualidade brasileira.

A partir disso me ponho a pensar, pois nessa semana o Supremo Tribunal Federal Brasileiro (STF) julgou a constitucionalidade das cotas. Isso que para nós, negros, negras vindos da periferia não se constitui nada mais que uma reparação, implementação de uma justiça social.  Ademais, penso também no cosmopolitismo do negro brasileiro. Penso em conceição Evaristo, Landê Onawale, Cuti entre outros. E para ser mais preciso, cito Abdias do Nascimento que chegou a ser professor em uma Universidade nos Estados Unidos, como também o foi Milton Santos, o geógrafo. Estes que saíram do seio de famílias excluídas e alijados do poder econômico, sem ter, muitas vezes, o mínimo para sobreviver, foram e são exemplos de cosmopolitismo para um povo que ainda sofre a discriminação em sua forma mais velada.

Além do que temos dito até aqui, ocupar os espaços do saber, do poder, da cultura e da política é direito também do povo negro. Vivemos numa sociedade que se diz agregadora, mas se transmuta, isto é, se camufla, melhor dito, e produz uma exclusão velada, cínica. Por isso, cabe a nós (negões e negonas) desde nossos espaços de lutas, mostrar, ocupar e socializar de forma popular e democrática  o acesso e permanência à educação, à saúde, à cultura , ao poder, ou seja, todas as instância da vida.

Nesses espaços de cosmopolitismo, também tenho minha voz, minha vez, mas ser negro, da periferia de Camaçari, estar em uma universidade do estrangeiro estudando não representa nada, não vale à pena se isso não for regra para todos e todas negras e negros. Ser cosmopolita negro e pobre é ter compromisso com a intelectualidade orgânica, – lembrando nosso Paulo Freire –, é pensar, é agir, é ter pacto, sobretudo com a transformação do social do povo negro.

Em suma, estamos legitimando nossos espaços na sociedade. As cotas, não é o fim é um meio. Elas serão necessárias até que todos os jovens negros possam ser também, aqui acrescento, cosmopolitas e transformar a comunidade em que estão inseridos, isto é, seu lugar.

(Escrito em Pereira, Colômbia, maio de 2012)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Poema à mulher negra ou a resistência de Dayse Sacramento





Não é porque eu gosto de Literatura e faça dela uma cachaça diária. Não é porque eu me dedico à leitura que escrevo isso. Escrevo porque quero viver, compartilhar e dividir com minhas irmãs e irmãos que são vítimas da opressão. Esse fato de estar do lado do oprimido eu aprendi desde cedo. Exemplos não me faltam, haja vista Dona Maria, minha mãe, que ficou viúva, vendeu mingau para operários do Polo Petroquímico de Camaçari, mas não deu nenhum de seus filhos. Esse é o exemplo maior de ser mulher, negra, pobre e batalhadora.

No entanto, escrevo essas linhas, tímidas, sem soberba, porque um relato me chamou atenção. Essa inquietude foi o fato ocorrido com a colega, Dayse Sacramento que relata em uma carta, divulgada pelas redes sociais, seu drama de ser acuada, desrespeitada e agredida moralmente por integrantes, homens, negros do bloco afro Ilê Aiyê, alegando que ela usava “tipo de roupa indecente”.

Quando li sua carta me pus a pensar no poema de Solano que segue:


Poema à mulher Negra

Ela é negra – que graça esplêndida
no seu colorido.
Seus olhos – magnéticos no seu puro sentido!
Sua voz – é um lundu tocado à madrugada!
Seu corpo – ó grande escultura
Seios estéticos em formas provocantes!
Sua alma – ó céus! – como expressar-me?

é grande com o Nilo
é quente como o sol
é boa como o amor!…

Quando ela passa – ó artes –
Eu me inspiro
Pois seu hálito é bom e prazenteiro…
Seu andar – caramba! – é um bailado.
Seus pés e suas mãos
Combinam com a cabeça
Como as estrofes que formam este poema…
(Solano Trindade,O poeta do povo, São Paulo: Ediouro, p.51, 2008)

Pensei nesse poema pela densidade, fluidez de imagens e beleza agregadas à mulher negra. Realmente, os companheiros homens, negros e pertencentes à diretoria do bloco Ilê Aiyê talvez não conheçam essa ode às pretas do nosso país.
A agressão sofrida por Dayse devido à reforma de sua roupa foi, na mentalidade atrasada e sexista daqueles homens era “uma ofensa à dignidade do ser homem, macho, de educação falocêntrica”. Como se o corpo da mulher, em especial a mulher negra, precisasse de permissão do elemento masculino para ser delineado e bailado, sintonizadas mãos, pernas e braços (De propósito, concordo nominalmente com o feminino, quebrando a regra machista da gramática). Como se o corpo feminino precisasse de ordem para se compor com as roupas que queira.
Essa idéia, senhores homens agressores de mulheres, já está ultrapassada. O corpo da mulher é livre. O que é permitido é poetizá-lo. O corpo é para deixar o outro sem palavras como afirma o poeta Solano: “ó céus! – como expressar-me?”

 O que aconteceu com Dayse Sacramento, acontece com Marias, Joanas, Andreas todos os dias. O corpo feminino é depósito de respeito e o que elas usam só diz respeito a elas. Precisamos iniciar, urgentemente a política “da graça esplêndida” solaniana.
Precisamos, senhores homens, seguir esse exemplo de poeticidade de Solano Trindade! E, finalmente, companheiras negras, vistam-se, denunciem as violências físicas e morais. Seu corpo, preta, é arte, resistam à opressão.
Por fim, não vale à pena calar, deixar para lá algo tão sério como esse desrespeito à dignidade feminina. O ser mulher merece respeito. Essa força feminina que é digna como foi  minha mãe, como são minhas irmãs, amigas, Oxuns, Oyás, as outras Iabas e como também o é Dayse Sacramento.  Mulheres que são grandes como o Nilo, como a vida!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Esses negros, quem são os meus irmãos?

Solano Trindade
Esses negros, quem são os meus irmãos?


Ao ler o poema, Negros de Solano Trindade, eu penso na atualidade desses versos do poeta negro brasileiro:

NEGROS

Negros que escravizam
E vendem negros na África
Não são meus irmãos

Negros senhores na América                                                    
A serviço do capital
Não são meus irmãos                                                             

Negros opressores
Em qualquer parte do mundo
Não são meus irmãos

Só os negros oprimidos
Escravizados
Em luta por liberdade
São meus irmãos

Para estes tenho um poema
Grande como o Nilo
(O poeta do povo, São Paulo: Segmento Farma, 2008, p.41)

Constantemente vejo negros contra as cotas raciais, submetendo outro negro à opressão. Negros que escravizam, exploram outros negros no trabalho, na escola, no bairro. A esses que usam da exploração para perseguir, humilhar, escravizar outro negro, jamais chamarei de irmãos. Eu os chamarei de capitães do mato.  De algozes dos descendentes de Zumbi dos Palmares.

                Não é algo utópico, é real.  Aos irmãos negos oprimidos, devemos nos juntar e combater o opressor que está na empresa, na escola, nos partidos políticos, no governo. A melanina na pele não é o suficiente para dizer que é meu irmão. Se oprimir o outro, se o escravizar, também é contra mim.

Sendo assim, a poesia do tamanho do Nilo, como nos verseja Trindade, deságua no nosso cotidiano. Passa por nós, renovando a consciência do poema liberdade. Do poema vida tecido por minha irmã preta que vende frutas na esquina, por meu irmão preto que varre a rua. Ou pelo negro que estuda para aprender a combater o opressor em todas as instâncias. A esses chamo de irmãos, de fé, de luta.

Avante, irmãos que lutam por LIBERDADE!
Denilson,  Pereira, Colômbia